terça-feira, 1 de abril de 2014

Triste e doce realidade


Permita-me então mergulhar
No negro mar da perdição
Permita-me fumar todo o ópio
Para acalmar meu ânimos
Para que eu morra lentamente, sem perceber
Deixa que eu beba todo o álcool
Para que no dia seguinte
Eu não lembre do dia anterior, hoje e sempre
Pois estou cansado desta vida dantesca
Dessas lembranças repentinas
Desse amor dilacerado
De todo ódio guardado
Do qual não tenho como me livrar

Encho meus pulmões de realidade
Dói quando inspiro
Enfureço-me diante de toda verdade
Faço da fúria meu retiro
E viajo léguas a frente
Para poder livrar-me do agora
E percebo que essa
Talvez seja a melhor hora
Para eu poder chorar
sinto meu coração esvaziar
A cada gota que derramo
E saudade vai se acalmando
A fúria ,amiga, me leva pro canto
E põem-se a me ninar.

domingo, 2 de março de 2014

Soneto do Amor Total


Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude

Antonio Carlos Jobim / Vinícius de Moraes

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Ouça-me

Imagem: Fabius Lorenzi

I

Um recado para vós
Que vos fazes de ovelha ao alvorecer
E segue os cuidados do pastor
E que durante a noite
Transforma-se nada dama escarlate
Deitando-se na cama de Satanás
Pondo-se a lamber o anus caprino
Para ganhar de um mestre
O que o outro não pode dar


II

Largue meu amigo
Da mão de um de vossos mestres
Para poder assim
Devotar-se ao outro com fé
Venda seu corpo ou sua alma
Decida-se
Ou largue a mão dos dois 
E fique consigo mesmo
Sem constrangimentos 
Siga suas próprias regras 
Segure suas rédeas 
Enfrente o caminho 
Que tens a percorrer

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Roseate Cockatoo

Roseate Cockatoo


Subverto a imagem do espelho
Para alegrar-te senhor
Subverto a personalidade que conheço
Pra agradar-te enfim, 
Crio grades dentro de mim 
Para não transparecer
Aquilo que realmente sou
Aquele a quem realmente quero



Cavalos marinhos 
Me acompanham em minha viagem
Mantendo vivo aquilo (Que eu sempre tive vontade de morrer)
Mantendo diante de meus olhos a paisagem
E por ser indigno senhor ao teu ver
Sob teus celestes olhos padeço 
Pois eu sei que não mereço 
Uma cadeira ao teu lado direito
Preços terei que pagar.

                       Daniel Sena.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Água com açucar




E o que eu quero na verdade
De verdade, quero todo sangue
Quero todo som
A noite escura, todo dom
Permanecer acordado 
Para assim testemunhar 
O espetáculo diário
Do sol raiar
Quero toda guerra e toda infância 
E no momento mais difícil 
Quero voltar a ser criança
Quero sentir as ondas 
lamberem minhas pernas
Quero fazer da minha vida
Uma história eterna 
Quero teu sorriso ecoando 
Dentro da minha cabeça 
Quero teu corpo 
Girando na dança 
Necessito que não me esqueça.

                                                              Daniel sena.

Teoria de ti





Filosoficamente meu bem 
Foi o bater de tuas asas
Que arrasou meu coração 
Levantou-se um tufão 
E o lado de mim 
Que a ti pertencia
Permanece assim sem fantasias 
E tento agora não sonhar em demasia
Com tua imagem e energia
Agora permaneço assim 
Sem eu 


Cientificamente meu bem 
Você é o fator sine qua non 
Da teoria do caos 
Pois teu simples sopro  
Minha querida 
É dentro de mim um vendaval.

                           Daniel Sena  

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Oração

Imagem: Anton Semenov


Liberta-te lobo feroz 
Mostra para mim de onde vens 
No coração do próprio homem
Morada sei que tens 

Não se esconda lobo maldito
Não esconda de mim tua face 
Pois eu sei que se continuo vivo
É por ter a ti nos combates


 
Levanta-te criatura infernal 
Não deixe de me acompanhar 
Pois se me abandonares velho amigo
Como ei de poder batalhar



Mastigado e cuspido serei 
Pois sem ti não há salvação
Acompanha-me lobo maldito 
Pois só tu és meu irmão



Liberta-me lobo maldito 
Das amarras a me aprisionar 
E mostra-me lobo maldito 
Em quem posso confiar 


E se em batalha cair 

Sei que de ti a proteção vira 
Pois tu lobo maldito 
Estará a me acompanhar 



E nas horas de desespero 
Não terei o que temer 
Pois carrego dentro de mim 
Um Lobo maldito para me socorrer



Inerente ao meu próprio o ser 
Um lobo maldito se espalha 
Pois ódio no sangue a percorrer
É como brasa quente na palha 



Lobo maldito por fim 
Juru-te lealdade 
Como tu jurastes a mim 
Viverei a tua verdade.

                                                Daniel Sena
 


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Apologia ao Caos


E hoje apenas não quero sair de casa
Quero fazer apologia ao caos
Ver filmes pornôs no café da manhã
Acender fogueira de são João no natal
Romper com meus pais no almoço
E não mais voltar pra jantar
Fugir daqui com você
Fazer sexo até o mundo acabar
Quero abrir as grades da prisão
E abrir o zíper da tua calça
Quero a possibilidade de não voltar mais a viver
E poder voar ao infinito
Quero toda dor e todo o sangue
E tudo mais que for bonito
Toda fúria e toda a revolta contida
Fazer morada nas batidas
Sentir o afago da avó
A simplicidade e o rebuscamento
Fugirei do casamento
No lombo de um jumento
Pois não nasci pra tal calvário
Quero fazer Apologia ao caos
Pois ele é o único que faz sentido
Quero tudo que houver de mais terrível
Tudo que o mundo puder me apresentar
Vou pregar contra as igrejas
E contra o falso moralismo cristão
Vou adolescer por completo meus versos
E farei tudo dar certo 
Quando levantar do meu divã
Meus pais querem um psicólogo
Digo que não tenho nada de Pisciano
O psicólogo fala que é adolescência
Digo, são rios, sou oceano
Acreditam todos que vai passar
Prefiro crer que é o fim dos tempos
Não preciso ter nenhum argumento
Só quero ver o mundo acabar
Roda moinho, roda gigante
Roda moinho, roda pião
Farei de hoje em diante
Do caos o meu coração

Comédia Humana


Imagem: Fabiu Lorenzi 


I

Um olhar languido persegue-me 
Teu corpo delgado, acende-me
Ofegante, excita-me 
Devoro-me com pensamentos imorais
Saliva escorre da boca 
Lambo os beiços imaginando
Deliciar-me contigo, lascívia
Como um lobo ao ver sua presa
Afim de saciar sua avidez canina
Minha pele se arrepia 
Um frio em mim se espalha
Como um guerreiro perante a batalha
Preparo-me para enfrentar meu inimigo 
E depois de derrubar-te de teu trono
Arrancar tuas vestes
E mostrar que és Kafka também 
Desprezível, digna de pena, nada além
E depois de lambuzar-me com cada pedaço
E de saciar todas as minhas vontades
Cuspir-te-ei no chão como mereces 
E te mostrarei, és daninha também
Abrirei teus olhos para ti mesma
E mostrar-te-ei a obscuridade
Que mora em ti

II 

Levantar-te-ei pois mereces 
Ó seres dignos de misericórdia 
Ensinarei a lutar com a força de tuas almas
Pela redenção
Em triste, pranto farei
Reconheça que sou bom 
Sou amor e humildade
E a responsabilidade das mortandades 
Estão fora de minhas mãos 
Povos indígenas, Ucranianos, Armênios 
E outros tantos deveriam morrer 
Faz parte do destino 
Agora segue este caminho fecha teus olhos
Pois te que quero bem
Pra que lembrar do sangue da estrada?
Se no fim da caminhada
Viverás perfeição 
Era necessário que sofressem 
Para que agora reconhecessem 
Que fora de mim 
Não há salvação.
 
 
                                                        Daniel Sena.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Orgulhoso


Engole seco o orgulho que carrega em si
Como cacos de vidros sendo mastigados 
Vilmente rasgam sua boca encharcada de sangue e saliva 
fragmentos do vidro dessem por sua garganta 
Desconfortavelmente rasgando-a 
Dolorosamente cortando-a, 
Fazendo-te sofre por abandonar a si mesmo 
Sua própria imagem no espelho.